Preconceito é ainda maior com lésbica que já se apaixonou por um homem

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Thailla Torres

Quando Camila Schmitz Leon, de 23 anos, se assumiu lésbica, encontrou todo tipo de sentimento no mundo. Do amor ao ódio, sentiu o peso do preconceito pelo fato de ter se relacionado com homens no passado. Até hoje, tem gente que ousa dizer que sua orientação sexual é modinha e hipocrisia.

Muitas mulheres vivem a mesma situação quando o assunto é diversidade. Por esse motivo, no Voz da Experiência de hoje, ela narra como conseguiu sair do armário depois de tantos conflitos e enfrentar com os pés no chão o preconceito. Provando que ser lésbica não muda a personalidade da mulher que sempre foi.

“Durante muito tempo, achei que orientação sexual fosse algo bem definido na minha vida. No início da adolescência, os relacionamentos ocorreram de forma “natural” ao que a sociedade espera. Me interessava por meninos, tive namorados e ser hétero pareceu, por muito tempo, a única alternativa que eu tinha vida.

Mas com a chegada da maturidade, me vi numa curiosidade incessante. Foi como ter descoberto algo que nunca imaginava dentro de mim. Vi que podia me relacionar com mulheres e que isso ia além da curiosidade. De repente me senti como se tudo aquilo fizesse parte da minha vida sem eu nunca ter percebido.

Mas desde a infância parecia que eu estava procurando provar algo para mim e para os outros, mas não sabia o que era. Mas no fundo sabia que precisava ‘assumir’ algo que meus amigos e minha família com certeza nunca sonharam.

Isso foi a alavanca para que tomar uma atitude em minha vida. O processo entre o sentimento e a revelação para a família sobre ser lésbica foi curto. E na época eu mal sabia que era o início de um processo muito grande de cura interior e emocional, principalmente após ter enfrentado a depressão.

Por isso, naturalmente a informação foi chegando a minha família. Não houve um “comunicado” oficial. Conforme eu vivia a minha vida as questões eram colocadas dentro de casa, até porque meu pais sempre me deram muita segurança e torceram para eu sempre ser alguém de personalidade.

Mesmo assim não posso dizer que o processo fácil. Toda mudança é impactante e requer um pouco de adaptações a todos. Mas o maior desafio foi  com círculo de amizades. Sempre fui baladeira, só conhecia pessoas do “meio hétero” e quando aos poucos começaram a descobrir sobre minha orientação, fui alvo de todo tipo de comentário e até objetificação.

Infelizmente porque na sociedade em que vivemos, de estrutura patriarcal, a mulher é julgada e rotulada em cada atitude que ela tem. E o preconceito é dos dois lados. Se a mulher é hétero, o mundo a obriga ser alguém de ‘de respeito’. Mas se foi lésbica, tem que desfilar com feminilidade e ainda por cima ser alvo de fetiche alheio. Isso prova que o machismo é contra qualquer mulher, seja ela hétero, bi ou lésbica.

Até chamada de hipócrita, fui. Virei piada e comentário maldoso por ter ficado com homem no passado. Situação que no início me incomodou muito. Porque acreditava que devia agradar as pessoas nas minhas atitudes. Foi preciso tempo para não ligar mais pra isso. Em contrapartida, até hoje, minhas melhores amigas são héteros e foram as pessoas que mais me surpreenderam com apoio e respeito.

Mas o difícil é se livrar da auto cobrança e o processo de libertação, mesmo diante de tantos julgamentos, só veio quando estive convicta da minha orientação. Me reconheci como mulher, ser humano e digna de respeito.

Ser lésbica se tornou mais do que “gostar de mulher”… Pra mim e acredito que pra muitas outras, é simbolo de resistência. Hoje ouvir “lésbica” ou “sapatão” que antes me causava náusea, hoje é minha fonte de força”.

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https://www.campograndenews.com.br/lado-b/comportamento-23-08-2011-08/preconceito-e-ainda-maior-com-lesbica-que-ja-se-apaixonou-por-um-homem

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