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O Homem por trás da Lacraia

01/11/2007: Entrevista: João Bernardo Caldeira
(da revista M:
http://www.revistam.com.br)

Quando as popuzudas do funk e as loiras do É o Tchan pareciam ser as únicas dançarinas capazes de atrair o olhar do público, MC Serginho teve uma idéia aparentemente suicida, talvez brilhante: colocou no palco para dançar uma bicha magrela, esquálida e negra para animar o baile. Hoje, cerca de sete anos depois do estouro inicial num programa da Xuxa, com Egüinha pocotó, Lacraia tem fama nacional, intensa agenda de shows e, de olho no futuro, um bom pé-de-meia. Para flagrar o homem por trás da Lacraia, a revista M... foi até o Jacaré, bairro da Zona Norte do Rio, onde mora Marcos Aurélio Silva da Rosa, 30 anos, solteiro, carioca da gema, sem filhos e ex-camelô, ex-cabeleireiro e ex-roupeiro de sauna gay.

Visto como personagem exótica e improvável, a parceira de Serginho recebe poucos pedidos de entrevista, ainda que volta e meia figure em revistas de fofoca como namorada de cantores e jogadores de futebol – “Tudo mentira”, se adianta em negar. No apertado apartamento de dois quartos, moram as duas irmãs, o sobrinho pré-adolescente, a mãe e o pai, o dono do pedaço. De volta recentemente à mídia com o sucesso Caetano disse não, que sacaneia a troca de farpas entre o cantor e a atriz Luana Piovani, MC Serginho e Lacraia não fizeram fortuna, mas não morrem de fome tão cedo. “Ficam ricos os contratantes, donos de equipe de som e as duas ovelhas negras do funk: Marlboro e Rômulo Costa”, acusa.

Mas com a grana que ganhou, já dava para morar sozinha (Marquinho, como é conhecido entre vizinhos e familiares, prefere o gênero feminino a ser tratado no masculino, embora ele alterne o uso dos termos como uma boa gilete, que corta dos dois lados). Nada nesse mundo, no entanto, a faria abandonar o bairro e a mãe, conforme pedido negado à gravadora que lançou o disco da dupla: “Foi onde nasci, e onde sou respeitado”, sobe nas tamancas Lacraia, da mesma maneira que fez em Cuiabá no balcão da TAM, quando perdeu um show por causa dos atrasos do caos aéreo.

De shortinho apertado, cabelo desgrenhado e top preto, horas depois da sessão de fotos para a M..., Lacraia recebe a reportagem da publicação na sala de sua casa, onde à noite estica um colchonete para dormir. Monique, simpática travesti de seios mais que avantajados, ajuda a amiga a lembrar de alguns fatos que vivenciaram juntas. Ao longo de quase duas horas de conversa, Seu Jorge José, de 64 anos, pai do entrevistado, por vezes puxa uma das cadeiras da mesa de jantar para ouvir a conversa. Em certo momento, expressa o descontentamento ao descobrir a homossexualidade do filho. Foram quatro anos sem que trocassem sequer uma palavra. Isso sem falar em problemas bem mais trágicos, como a morte a tiros do outro filho, envolvido com o tráfico.

Mas nenhuma dificuldade parece abalar a alegria e o otimismo de Lacraia, antenado como não se pode imaginar. Para ela, Heloísa Helena é idolatrada pela comunidade gay; Renan Calheiros, mais um safado entre muitos que serão desmascarados; e Fernando Gabeira, o presidente gay ideal. Gay?? “Não é, mas é...”, filosofa. De língua afiada e sinceridade rara, Lacraia não foge de pergunta alguma e conta como foram as duas frustradas relações sexuais com mulheres. Sonha adotar uma criança e ser apresentadora: “Quero me tornar a Xuxa preta”. Mas antes, pode realizar a fantasia de moçoila à espera do príncipe encantado: “Se um cônsul quiser casar comigo, eu largo tudo!”. À primeira vista, parece difícil entender de onde vem a confiança que Lacraia ostenta, bem como a longevidade de um bizarro fenômeno de mídia que tinha tudo para ser mais uma moda passageira, como o próprio funk, mas permanece em voga. Sem medo da discriminação e consciente de que um dia tudo passa, Lacraia revela suas convicções: “Se houvesse preconceito, eu já tinha desaparecido. Quem botou Serginho e Lacraia na televisão foi o povo brasileiro”.

Apesar de todo o sucesso, a dupla Serginho e Lacraia não lançou muitos CDs. O funk ainda é underground?
A gente está na era do pirata. Na Uruguaiana, tem CD do Sergio, porque nos bailes sempre gravam nosso show. Nossos sucessos saíram numa coletânea de vários artistas da Furacão 2000, e depois teve um disco lançado pela Indie Records. Serginho não liga para CD porque hoje, com a internet, todo mundo tem as músicas. O que dá dinheiro é show e direitos autorais.

Você nunca participou da parte musical?
Gosto mesmo é de dançar. Quando estou de folga, saio pra poder dançar. Mas nessa música nova, Caetano disse não, tem uma parte que entra a minha voz. Você sabe, a Luana Piovani disse que Caetano Veloso tinha feito uma música em homenagem a ela, mas ele desmentiu e depois voltou atrás. Então o pessoal do Pânico chamou um monte de gente pra fazer músicas pra ela.

O que Caetano e Luana Piovani acharam da música?
O Caetano a-do-rou! Dei o CD pra Preta Gil entregar a ele, e ela depois me disse que ele gostou tanto que não tira do case do carro. E a Luana disse no jornal que é sacanagem falar que uma pessoa esquelética de nome Lacraia se pareça com ela.

Essa música ganhou até coreografia inspirada na atriz, né?
Pois é. E todas essas maluquices saem da minha cabeça: a parte do strip-tease, o beijo da Lacraia... Tem uma hora que o Sergio chama um homem no palco para ganhar 50 reais pra me beijar na boca. E não é técnico não, meu amor: de língua.

Os homens se estapeiam pra poder te beijar?
O quêêê??? No Salgueiro, era só cara marombado se debatendo pra poder me beijar. Se eu estiver brigada com Serginho, ele escolhe o mais feinho.
Como eu sou muito profissional, tenho que beijar. Tem vezes que eu dou uma catucada: “Ó, escolhe aquele ali”. Já beijei muito homem...

Strip-tease e beijo na boca acontece em todo show ou depende da platéia?
Se tiver muita criança, não. Serginho tem uma filha de 12 anos, e o que ele não quer pra filha dele ele não quer para a filha dos outros. A gente alcançou um público infantil muito grande. Por isso que eu não acho que preciso dizer na TV que sou gay. Se eu disser que sou gay, você vai deixar seu filho ficar dançando Vai Lacraia? As crianças me vêem como personagem, não têm maldade. Até perguntam: “você é homem ou mulher?”. Eu digo, “Olha, eu sou a Lacraia e pronto!”. Não quero confundir a cabeça delas.

Como Marco Aurélio da Rosa se transformou em Lacraia?
Com 16 anos já comecei a conhecer o mundo gay. De dia eu era camelô, de noite eu era a drag-queen Volpi Jones, a sósia oficial da Grace Jones. Depois eu virei cabeleireiro, porque dava mais dinheiro. E então fui trabalhar numa sauna gay chamada Meio Mundo, no Centro, como toalheiro e roupeiro.

Você fez programa?
Nunca. Eu indicava para os clientes um garoto legal pra fazer, e ganhava muita gorjeta.

Estudou?
Fiz até a quinta série, mas larguei. Um amigo trabalhava no MEC, e consegui comprar um diploma de faculdade de dança. Nunca consegui ficar na sala de aula.

Como você conheceu Serginho e virou dançarina?
Serginho e Latino estavam concorrendo com um samba no Salgueiro. No ônibus pra quadra, o Serginho só falava de putaria. “Ai, que cara chato”, pensei. Chegando lá, vieram quatro pit-boys querendo bater na gente, e o Serginho comprou a nossa briga: “Não vai bater nos meus viados, não! Eles estão comigo!”. O samba acabou não ganhando, mas eu peguei amizade com ele e passei a ir em todos os seus bailes.

Como surgiu a dupla?
Quando chega três horas da manhã, o povo do baile já está cansado. O Serginho então me jogava no palco. No começo, eu era a Margarete Robocop. Ele dizia que eu dançava igual a um robô. Um dia ele viu uma lacraia passando no chão e disse: “Cara, igual ao corpo do Marquinho!”. No baile, então, ele mandou: “Vai, Lacraia! Vai, Lacraia!”. No dia seguinte, eu liguei pra ele: “Ó, pára de me chamar de Lacraia”. Eu odiaaava!

Mas o nome pegou...
A Marlene Mattos chamou a gente pra fazer um programa da Xuxa, o Planeta verão, lá pra 2000. Nego estava acostumado com as gostosas do É o Tchan e o Sergio bota eu, todo esquelético. No dia seguinte, todo mundo me chamava: “Vai, Lacraia!”. Acabei aceitando...

Você acha que ajudou a diminuir o preconceito contra o homossexual?
Com certeza. O Sergio virou ícone do mundo gay. Ele é hetero, casado, mas nunca teve preconceito. Hoje em dia, quando as bichas andam na rua, não são mais chamadas de viado, mas de Lacraia. Isso pra gente é um presente. E tirei muito homem de dentro do armário. Porque tem muito cara incubado com medo. Até 2010 a discriminação vai estar bem menor. Se hoje não botam um gay na novela, ela não vinga. Paraíso tropical foi mais uma da Globo com gay.

E a Lacraia, no momento, está namorando?
Ai, eu não gosto de falar da minha vida afetiva. O que já saiu de matéria dizendo que eu fiquei com jogador e cantor... Tudo mentira. Saí muito machucada de uma relação de cinco anos. Estou enrolada no momento, fiquei com um cara e a gente está se conhecendo.

Tem muito homem interesseiro de olho no seu sucesso?
Nossa! Muito! Tem muito vício também, de homem querer só uma noite e acabou.

Já pensou em ter filhos?
Outro dia eu estava conversando com uma amiga, e ela disse que se um dia for mãe quer que eu seja o pai. O dia que eu encontrar uma pessoa firme e formos morar juntos eu penso em adotar uma criança.

Então você nunca teve filhos?
Não.

Nunca fez sexo com uma mulher?
Só transei com duas mulheres, pra saber se gostava mesmo de homem. Na primeira vez, nem consegui, porque não tive ereção. Na segunda, teve sexo, mas eu tive que pensar no irmão dela pra me excitar. Foi horrível.

Quando você descobriu que era gay?
Com 10 anos. Em comunidade carente, as maldades começam cedo, o povo passa o cerol e não quer nem saber. Eu olhava para homem e sentia tesão, sempre gostei de brincar com as garotas e nunca joguei bola nem soltei pipa. Em escola de samba, eu sempre queria ser a passista. Em festa caipira, eu era a noiva.

Como foi que seus pais descobriram?
Demora um tempo pra falar. Mas aquilo fica te sufocando. E sempre tem alguém preocupado com o que o vizinho vai falar. Mas o vizinho paga as minhas contas? Deixa ele falar. E quem fala muito mal de gay, meu amor, dá à beça ou está doido pra dar.

Então um dia você tomou coragem e contou?
A primeira pessoa pra quem contei foi a minha avó, que me deu apoio. Depois, estava todo mundo numa festa, eu cheguei e falei. Foi no ano que Moreno, meu irmão mais velho, morreu. Quando foi, mãe? (Ele dá um grito para Dona Alice, que prepara o jantar na cozinha) Faz dez anos.

Como o seu pai reagiu?
A cara dele mudou, disse que não ia aceitar: “Não quero filho gay, filho meu tem que ser homem”. Não me expulsou de casa, mas parou de falar comigo por quatro anos. Eu tinha uns 16 anos. Mas na rua desde pequeno todo mundo já sabia. Minha roupa no colégio era uma calça apertadíssima, jeans e blusa de barriga de fora...

Minutos depois, o pai de Lacraia, Jorge José, ou Neguinho, para os mais chegados, puxa uma cadeira para participar da conversa. Aproveito para lhe perguntar por que ficou tanto tempo sem falar com o filho. Ele responde: “Um vizinho me contou e, no começo... a gente quer um filho homem, né? Mas depois... deixa pra lá”.

Lacraia, você mencionou uma história triste com o seu irmão...
Pois é. Era traficante e foi morto a tiros ainda adolescente. A polícia matou ele na linha do trem. Nessa época, fiquei um bom tempo sem sair na rua, morrendo de medo.

Com toda a fama, e algum dinheiro, por que não se mudou para um bairro melhor?
Quando a gente foi lançar o disco pela Indie, a primeira coisa que o cara da gravadora falou foi que a gente tinha que se mudar. Eu dei um pulo: “Não vou sair da comunidade. Foi lá que eu nasci, e lá que eu sou respeitado”. No Jacaré eu sei que ninguém vai me seqüestrar, nem fazer maldade comigo. Só de eu falar na televisão que moro aqui levantou a comunidade. Já foi mais violento, mas não é isso tudo que a televisão mostra. Eles só querem audiência. Jacaré é um bom lugar: é a segunda maior favela da América Latina!

O tratamento dos vizinhos mudou depois do sucesso?
Com certeza. Antigamente, eu era viado escroto, bicha feia, horrorosa... Agora é Lacraia. Já levei muita porrada. No colégio, todo dia era uma briga por eu ser afeminado. E tinha uma rixa de onde eu moro com os prédios da Cohab. Toda vez que eu vinha a pé eu apanhava. Era pedrada, colada, bandão, soco na cara...

A carreira lhe trouxe dinheiro?
Quem canta funk não fica rico. Ficam ricos os contratantes de show, donos de equipe de som e as duas ovelhas negras do funk: Marlboro e Rômulo Costa. A gente tem um processo por causa daquele CD (aponta para o pôster orgulhosamente emoldurado e pendurado na parede, no qual se lê a frase: “homenagem a Lacraia pela vendagem superior a 100 mil cópias do CD Furacão 2000 twister”). Até hoje Sérgio não recebeu o dinheiro. Uma vez, ligaram pra gente da Bahia porque o Rômulo tinha fechado show com a gente. Só que ele não é e nunca foi nosso empresário.

Por que DJ Marlboro é mal visto?
Ele pega os garotos que estão começando e bota os direitos autorais das músicas em nome dele. Porque ele trabalha na rádio número 1 do Rio, a FM O Dia, então a música que tocar ali estoura. O garoto recebe um dinheiro pra comprar carro, moto, roupas, e assina contrato sem ler nada. Mas quanto o Marlboro ganha por CD? Isso que estraga. Senão já era pro funk ter virado música popular brasileira.

O fato de o funk mostrar a mulher de forma pejorativa também não atrapalha?
Isso diminuiu muito. Serginho não gosta de fazer música que esculacha mulher ou gay. Desses funks de facção, o proibidão, eu também não gosto. Funk tem que ter a batida boa e putaria. Brasileiro gosta de putaria. Mas sem esculachar ninguém.

Voltando para o lado financeiro, algum pé de meia você fez...
Esse apartamento é do meu pai, mas eu poderia comprar um. Mas não tenho pretensão. Por que eu largaria a minha mãe?! Ela faz tudo pra mim!

E quanto é o cachê da dupla?
Varia de 5 a 10 mil reais. A gente deve fazer uns 15 a 20 por mês. Na Zona Sul do Rio, faz tempo que a gente não vai, porque quem comanda a região é o Marlboro, que só leva a panelinha.

Quanto desse valor fica com você?
Sabe que eu não sei? Acho que uns mil reais.

Você consegue juntar dinheiro?
Olha, já fui muito gastadeira. Não posso ver bolsa, sapato, que eu compro, não importa o preço.
O pai de Lacraia intervém: “Ele podia ter comprado alguma coisa. No auge, o Serginho comprou casa em Angra”. Lacraia rebate: “Mas pai, você tem que entender que ele é cantor, ganha mais que eu. Eu apenas danço. Seu Jorge José insiste: “Mas podia ter comprado alguma coisa...”.

Então você gasta tudo, Lacraia?
Estou juntando. A gerente do meu banco me disse que o dinheiro está muito parado na poupança e falou pra botar tudo em Real Cap. Ano que vem estou pensando em abrir um salão de beleza em São Paulo com uma amiga.

Será que um dia desses a dupla pode acabar?
Não posso ficar dançando pra sempre, então um dia acaba. Por enquanto, não tenho intenção de separar, a não ser que ele me mande embora. Um complementa o outro: ele tem a voz e eu tenho a dança. O Serginho não é ninguém sem a Lacraia e a Lacraia não é ninguém sem o Serginho.

O sucesso do funk é eterno?
O funk nunca vai sair de moda, porque é o ritmo que ninguém fica parado. Nós fomos fazer show esse ano em Angola. E quando eu ia imaginar que o funk me levaria até a África? E o povo de lá cantando todas as músicas do Sergio!

Existe público para o funk no exterior?
Querem fechar este ano shows com a gente na Europa e nos Estados Unidos. Um amigo meu chegou em Portugal e ouviu a música do Serginho no último volume. De noite, ele me telefonou: “Corri daí pra não ver a tua cara e até aqui essa bicha me persegue!?”.

Está ansiosa para viajar para fora mais uma vez?
Sou louca pra conhecer a Europa. Tenho certeza que se eu conhecer Paris eu não volto mais. Amsterdã, então?! Se eu conhecer um cônsul e ele quiser casar comigo, eu aceito na hora! Largo carreira e fico por lá!

O que a projeção na mídia lhe deu?
A parte boa é que você ganha tudo: roupas das lojas, comida de graça no restaurante. No banco, o gerente te chama pra passar a fila. E a parte ruim é, vamos supor, você está no hotel com o seu namorado, as camareiras batem na porta: “Tira uma foto comigo?”. Você está comendo e quando dá a primeira garfada vem uma senhora pedindo pra tirar foto. Se você fala “Não, espera eu acabar de comer”, a senhora responde “Viu como é que é?? Na televisão é uma coisa, agora é outra!”.

Gay tem fama de ser esquentado. Você gosta de arrumar barraco?
Já arrumei vários barracos em aeroporto nesse negócio de caos aéreo. A gente estava em Cuiabá e nosso vôo tinha atrasado. Cheguei no balcão e arrasei com o cara. Já decidi que vou processar a TAM. A gente perdeu dinheiro porque não conseguiu chegar num compromisso no Rio.

Você acompanha o noticiário? Viu os escândalos do Renan Calheiros?
Acompanho, sim. Acho que estão certos de mexer com ele, porque não é só o Renan que é safado. Quando o baú revirar vai sair muita coisa de dentro.

Você diria que a Mônica Veloso, com quem o senador teve um caso extraconjugal e uma filha, é como uma cachorra do funk, que só quer aparecer?
Claaaaaro. Com aquela carinha de ingênua? Primeiro, a mulher não queria dar entrevista. Depois, fala com todo mundo. Tava fazendo doce. E já saiu até na capa da Playboy. Ela quer mídia mesmo, quer ser a nova Luciana Gimenez, que ficou conhecida mundialmente por causa do Mick Jagger. Escuta o que estou falando: até o começo do ano que vem a Mônica Veloso vai virar apresentadora.

A bandeirinha Ana Paula Oliveira também tirou a roupa, né? Um grande trampolim para o sucesso...
Ai, nem me fale, porque o meu grande sonho de consumo é posar nua.

Jura?
É, mas já deixei pra lá. Agora meu sonho é ter um programa infantil e virar apresentadora. Já que as crianças gostam tanto de mim, vai ser um sucesso. Quero ser a nova Xuxa. A Xuxa preta.

Você acha que o gay é um bom exemplo para as crianças?
Depende. Tem gay que é marginal, corta a cara, anda com gilete na bolsa e dá garrafada. Mas tem gay que leva alegria para os outros, como o David Brazil (da FM O Dia).

Não tem medo do preconceito?
Não. Se tivesse preconceito, eu já tinha desaparecido. Quem botou Serginho e Lacraia na televisão foi o povo brasileiro.

No meio artístico, você já sofreu algum preconceito?
Já. A Carolina Dickman foi uma. Eu estava no Canecão, no show da Preta Gil, e a Carolina estava do nosso lado com o David Brazil. Aí ele disse: “Olha, é a Lacraia!”. Ela nem deu as caras. De costas, fez assim com a mão (encena um tchauzinho cheio de desprezo). Meu olho ficou cheio d’água. Sempre fui uma grande fã dela.

Em quem você votou?
No primeiro mandato do Lula, votei nele. Depois votei na Heloísa [Helena], aquela nordestina de óculos, né? Essa mulher é ma-ra-vi-lho-sa! Os gays todos votam nela. A Heloísa fala as coisas na cara, não manda recado. Eu também sou assim. Sou do signo de sagitário, né? Muito verdadeiro...

O que você acha do Lula?
De 1 a 10? Dou 5. Falta muita coisa pra ele ainda. Sabe quem tem que ser presidente do Brasil? Aquele cara do Partido Verde, o [deputado federal Fernando] Gabeira. Tinham que botar um gay pra presidente.

Existe algum?
O Gabeira é. Não é, mas é.

Um gay seria melhor presidente do que um heterossexual?
Com certeza. Porque o gay sabe conduzir as coisas e tem raciocínio rápido. E você nunca viu um gay triste. Você acha que o Brasil ia estar essa merda que está se tivesse um gay à frente? É ruim, hein! Não estaria, não, querido.

Mas será que o Brasil tem jeito?
Claro que tem. Se fizeram os Jogos do Pan aqui, gente, por que o Brasil não tem jeito? Quando eu ia imaginar que o Rio de Janeiro, uma cidade que aparece tão violenta na televisão, ia sediar um evento desses?

E você, Lacraia, tem jeito?
Olha, teve uma vez que eu andei daqui onde eu moro até o Méier, uma hora e meia a pé, só pra poder me acabar num baile do Serginho, bem antes da gente virar uma dupla. Quando eu cheguei lá, os olhos dele se encheram de lágrimas, porque ele sabia do sacrifício. Sempre fui assim, já nasci maluco mesmo, sempre fui louco, sempre gostei de dançar, sem pretensão nenhuma. Então, agora eu acho que não tem mais jeito, não...

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Título: O Homem por trás da Lacraia
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