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INCRA - admite assemento de casal de lésbicas!

17/01/2006: Terça-feira, 17 de
Janeiro de 2006 (extraído do site da agência Estado)


De papel passado


Roldão Arruda, de Iaras (SP)


Nilton Fukuda/AE


Darci e Dida: quatro anos de relação estável
17.01.2006 |
O lote fica à beira de uma estrada de terra que só picapes
valentes e com eixo alto atravessam nos dias de chuva. Um lugar
ermo, sem vizinhos à vista, e distante 17 quilômetros da cidade mais
próxima. Para alcançar o lote é preciso subir alguns degraus
improvisados na terra rosada de um barranco e lá em cima quem
primeiro se ouve é o pequeno Falcão. Late bravo ao mesmo tempo em
que abana rápido e alegre o rabo, sem saber ao certo como receber as
visitas.

Mais adiante, recortado no capim do que parece já ter sido um pasto,
avista-se um jardim em formação. Jardim de gente pobre. Desses em
que as flores se misturam com verduras e legumes. Tem crista-de-
galo, crisântemo, onze-horas, cravo-de-defunto, lírio e
margaridinha, ao lado de feijão-andu, quiabo, abóbora, cará. Atrás
do jardim, aparece enfim o barraco onde vivem as donas do lote, as
trabalhadoras rurais Darci Maria Batista, 37 anos, e Zildenice
Ferreira dos Santos, 30, mais conhecida como Dida.

À primeira vista, nada nelas parece justificar a ida até aquele
sertão, a 300 quilômetros de São Paulo, pela monótona Rodovia
Castelo Branco. Vestem calça comprida e botina, têm as mãos grossas
de tanto cabo de enxada e uma delas fala com acento caipira
carregado, trocando `vive' por `véve', como tantos outros
trabalhadores rurais. O que as torna diferentes é que vivem, ou
vévem, seja lá como for, como um casal. Dividem a comida, o dinheiro
curto, a cama larga suspensa sobre troncos rústicos de eucalipto e o
lote de 16 hectares onde foram assentadas. Mais do que isso: Darci e
Dida formam o primeiro casal de homossexuais na história do país
legalmente assentado num lote de terra pelo Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária, o Incra. Com os mesmos direitos de um
casal heterossexual, podem pleitear financiamentos e seguros
oficiais em nome das duas e, se uma delas morrer, a outra será a
herdeira legal.

As duas são boas de conversa e, quando sentam para contar sua
história, ficam particularmente emocionadas ao lembrar o momento em
que assinaram o papel do Incra, como elas dizem, referindo-se ao
documento de posse da terra. "Assinei em cima e ela, embaixo", diz
Darci. "Foi no papel, foi lindo", completa a companheira.

Duas histórias tão diferentes


Nilton Fukuda/AE


Vida doméstica:tarefa de homem e de mulher
Mas não foi fácil. Há cerca de sete meses, quando o governo liberou
a terra para a formação do assentamento dos sem-terra e as centenas
de famílias acampadas à beira da estrada começaram a discutir a
divisão do terreno, Darci e Dida disseram que desejavam ser
assentadas no mesmo lote. Parte dos companheiros sem-terra torceu o
nariz, teve gente que duvidou da capacidade delas para tocar uma
propriedade rural e os representantes do Incra advertiram, "olha
aqui, tudo bem, mas não existem precedentes legais para esse
arranjo, não vai dar..."

Acuadas, as duas chegaram a propor que lhes fosse dado um lote
menor, o chamado pararural, oferecido a pessoas solteiras ou a
idosos sem filhos – desde que o nome das duas figurasse no papel. A
insistência, até mesmo com a perda de parte de seus direitos, já que
tinham enfrentado todas as agruras de um acampamento ao lado dos
companheiros, tinha um motivo: elas viam no tal papel o coroamento
de uma luta que travaram durante quatro anos. Desde que se
conheceram no acampamento Nova Canudos, mantido pelo Movimento dos
Sem-Terra (MST), na mesma região onde hoje fica o assentamento
denominado Zumbi dos Palmares.

Darci tinha acabado de chegar de Lençóis Paulista, acompanhando o
marido desempregado e puxando quatro filhos pela mão. Dida já estava
acampada havia dois anos. As experiências delas na área afetiva eram
completamente diferentes. Dida reconheceu seu desejo por pessoas do
mesmo sexo quando tinha apenas doze anos ("se a gente brincava de
casinha, eu queria ser o pai") e insistiu nele, apesar das surras da
mãe, evangélica da Assembléia de Deus, e das gozações do irmão mais
velho, que a chamava sarcasticamente de João. Mas Darci, que casou
aos 16 anos com o primeiro namorado firme que teve na vida, jamais
tinha pensado na possibilidade de se relacionar com outra
mulher: "Nunca tinha mexido com esse bicho. Mas quando a Dida deu em
cima de mim e eu experimentei o carinho de mulher..."

Um ano depois de se conhecerem, Darci decidiu abandonar o marido
para viver com Dida. A notícia desabou sobre o acampamento como um
terremoto. "Teve uma revolta aqui", ela conta. Não aceitaram. Pensei
até que ia ser expulsa. Meu ex-marido me ameaçou, os amigos dele não
falaram mais comigo e chegou uma hora que pensei: é só eu, a Dida e
Deus. Contra o mundo."

Dida recorda que o ex-marido da companheira ficou tão furioso que
ameaçou cortar a cabeça de Darci e pendurar na cerca, para servir de
exemplo. "Acho que a raiva não seria tão grande se ela tivesse
ficado com outro homem."

Foram necessárias reuniões de emergência para conter os sem-terra e
acalmar o marido, que não cometeu nenhuma violência física, mas foi
à Justiça e obteve a guarda dos quatro filhos. Hoje, passados quatro
anos de união, a situação é diferente. As duas mulheres conseguiram
o respeito e a admiração dos sem-terra. Dida foi eleita coordenadora
do grupo de oito famílias que estão assentadas na área onde elas
vivem e quando alguém a chama de João não se incomoda: o apelido
virou uma forma carinhosa de tratamento. Por outro lado, o Incra
encontrou uma forma legal de fornecer o almejado papel com a dupla
assinatura e abriu-lhes a porta para um pequeno pedaço na história
das conquistas homossexuais.

Dizem que não é coisa de Deus

Elas sabem que ainda existem assentados que não as aceitam, mas não
se preocupam com eles: "Dizem que isso não é coisa de Deus. Pode até
ser. Mas quem pode dizer isso pra nós é Deus e não outro ser humano
com defeitos igual à gente."

E os filhos? Eles vão visitar a mãe com tanta freqüência, que, ao
erguer o barraco onde vivem, as duas mulheres fizeram um quarto
extra, com quatro camas, ao lado do quarto do casal. Também fizeram
um pequeno cercado de arame farpado, onde deixam presa a égua que o
pai, agora com nova companheira, empresta para os meninos irem do
lote dele até o da mãe.

Tudo ali ainda é precário. Enquanto aguardam recursos e orientação
do Incra para explorar a terra e construir sua casa, as duas vivem
no barraco de chão de terra, paredes de restos de madeira obtidos em
construções e teto de amianto. Não dispõem de banheiro, energia
elétrica, nem água encanada. Pela manhã, pegam uma carriola e galões
de plástico e vão se abastecer numa mina d'água a uns 150 metros de
casa, acompanhadas pelos dois cachorros da casa: Falcão e Pandora.

Contam apenas com o dinheiro do Bolsa Família, que manda R$ 50 por
mês para cada uma. "É apertado, mas dá para levar", afirma Dida. No
dia da entrevista, ela tinha ido ao supermercado e voltado de lá com
uma notícia ruim: o dinheiro não deu para os R$ 35 do bujão de
gás. "Esse mês vamos ter que ficar só na base da lenha."

Foi na base da lenha que Darci fez um café encorpado e bem doce para
as visitas. Ela é quem cuida da cozinha, de acordo com a divisão de
trabalho que vigora ali.

Darci, que é bem feminina e, quando pode, esmalta as unhas, tinge o
cabelo, depila a sobrancelha, põe brinco e se perfuma, faz os
serviços considerados de mulher. Dida, que apara religiosamente o
cabelo rente ao couro cabeludo e aperta a mão do interlocutor como
se lhe fosse triturar os dedos, cuida das coisas de homem. Nas
festas e reuniões comunitárias, Darci fica no lado das mulheres e
Dida, dos homens. Dançam juntas nos forrós e quando algum homem pede
uma contradança a Darci é preciso obter antes a autorização de Dida.
Ciumenta, ela só concede se o sujeito for conhecido e boa-praça.

As duas vieram da cidade, mas já tinham passado pela zona rural. A
família de Darci era tão pobre que aos oito anos ela foi dada a uma
outra família, que trabalhava para fazendeiros no interior de São
Paulo: "Disseram que não tinham condição de me criar. Com essa outra
família, eu cresci em lombo de cavalo. Sou retireira. Sei tirar
leite, matar porco e descarnar boi."

Dida trabalhou como horticultora no Rio Grande do Norte, antes de se
mudar para Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. Até
aderir aos sem-terra, ela chegou a fazer parte dos sem-teto, ao lado
da mãe, irmãos e primos.

O gosto de ambas pela terra pode ser visto na horta que estão
formando ao lado do barraco. Lá cresce de tudo um pouco e a produção
é usada na cozinha delas e na das vizinhas mais próximas. Tem
chicória, rúcula, coentro, almeirão mato-grosso, morango, cebolinha,
salsinha, cenoura, pepino, abobrinha-de-árvore, jiló, vagem, couve.
Também tem mamão, jabuticaba, banana e melancia.

Próximo à horta fizeram um cercado para os frangos e outro para a
Neguinha, porca que criam em sociedade com um dos vizinhos. Olhando
para o bicho, Darcy conta que seu maior desejo é ter uma vaca
leiteira. "É o meu sonho. Hoje, quando quero um copo de leite para
mim ou para a Dida, tenho que sair por aí, pedindo para algum
vizinho. Eles dão, mas não posso ficar pedindo todo dia. Quando
tiver a minha vaquinha, vou fazer muito doce de leite, queijo,
requeijão."

É um sonho longínquo para quem vive com R$ 100 por mês, considerando
que o preço de uma vaca leiteira na região gira em torno de R$ 1
mil. Mas, mesmo sem vaca, elas parecem muito felizes. Tão felizes
que às vezes Dida pega uma cópia do título do Incra, passa os dedos
pelas duas assinaturas e ainda pergunta, temerosa: "Será que um dia
vão dar pra trás e tirar isso da gente?"







 

Fonte: Agência Estado

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