Carta
de Curitiba – Assembleia Estatuinte e Eleitoral da ABGLT
25 a
27 de janeiro de 2013
De 25 a 27 de janeiro de 2013 realizamos na cidade de Curitiba a Assembleia Estatuinte e Eleitoral da ABGLT.
Esta assembleia se realiza em um importante e paradoxal período na história
da luta pela livre orientação sexual e identidade de gênero no Brasil.
Nossa Associação completa 18 anos de existência, coroando o esforço de
milhares de militantes LGBT que desde a
Assembléia de 1995 vêm se dedicando ao fortalecimento de uma entidade que
congregue a maioria das organizações que lutam pelos direitos e pela cidadania
LGBT no Brasil.
Sabemos da importância que as iniciativas dos primeiros grupos
homossexuais constituídos no final dos
anos 70 e começo dos 80 do século passado tiveram para que chegássemos a este
momento, pois foram o exemplo de que somente a luta coletiva e organizada pode
ter êxito contra a discriminação por orientação sexual e identidade de
gênero.
Nestes 18 anos, nossa mobilização fez com que o Estado brasileiro
passasse por importantes transformações do ponto de vista da institucionalização
das políticas públicas de promoção dos direitos humanos da população de
lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais
(LGBT).
Nossos primeiros avanços ocorreram em diversos municípios e estados onde
conquistamos legislações de combate à discriminação por orientação sexual e
identidade de gênero, bem como de reconhecimento de nossas datas comemorativas
(29 de Janeiro, 17 de Maio, 28 de Junho, 29 de Agosto) e de ações afirmativas na
educação e na saúde. Por outro lado, a partir de 2004 o Governo Federal começou
a assumir alguns compromissos com nossas reivindicações, através do Programa
Brasil Sem Homofobia, o Programa Nacional de Direitos Humanos III, a realização das duas Conferências Nacionais
LGBT, a criação do Conselho Nacional e da Coordenação-Geral LGBT e o
reconhecimento pelo STF da união estável.
Estes avanços provocaram em contrapartida um crescimento da organização
dos setores conservadores e um recrudescimento das ações dos fundamentalistas
religiosos, que têm conseguido uma maior capilaridade política e capacidade de
pressão sobre os diferentes governos.
A campanha presidencial de 2010 foi um momento de profundo tensionamento
do campo conservador sobre as candidaturas de maior expressão de votos, as quais
recuaram e assumiram publicamente o descompromisso com propostas como o
casamento entre pessoas do mesmo sexo e a legalização do aborto, e provocando
ainda um congelamento de outras agendas fundamentais dos direitos
humanos.
A violência motivada pela intolerância à diversidade sexual, à livre
orientação sexual e identidade de gênero, que já atingia em grande número a
população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, mais
recentemente tem vitimado inclusive pessoas heterossexuais, o que evidencia a
situação alarmante a que chegamos. E também militantes do movimento LGBT
passaram a ser alvos desta violência.
Para combater estes setores é fundamental repensar os instrumentos de
controle e participação social. Neste sentido é necessária uma nova compreensão
da centralidade, que têm espaços tais como as conferências, que precisam assumir
o caráter de resgate da soberania popular, para que de fato seja respeitado o
exercício da cidadania através da decisão do povo sobre sua agenda política e
social.
Este avanço do fundamentalismo e retrocesso dos princípios e valores
democráticos se evidencia quando vemos uma Lei dos Bons Costumes ser sancionada
no estado do Rio de Janeiro, bem como na tentativa de aprovação do PDC 234/11
que visa revogar a resolução 001/99 do CFP.
A reação dos conservadores se manifesta também em âmbito internacional. A
passeata em Paris contra a proposta de casamento igualitário mostrou o quanto
essas ideias fascistas de negação de direitos ainda tem capacidade de
interlocução com a sociedade. E personalidades do atraso como o Papa Bento XVI
são catalisadores deste pensamento intolerante e
excludente.
O destaque da imprensa internacional às declarações do Presidente Obama
em sua posse, a favor da igualdade de direitos, mostra que a defesa destas
posições em nada implica como risco de isolamento político. E em nossa América
Latina podemos afirmar com certeza que o Brasil precisa aprender com nossos
irmãos e irmãs da Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia no tocante às leis e
políticas de inclusão da população LGBT.
É importante que no próximo período o movimento LGBT aprofunde a
discussão e a formulação necessária ao enfrentamento da ameaça deste campo. Da
mesma forma, organizar uma estratégia de contraponto, em diálogo com outros
setores da sociedade onde o desrespeito a laicidade prejudica a agenda política,
torna-se uma tarefa central ao próximo período.
Este debate, passa inclusive pela entrada massiva nas discussões e
mobilizações a cerca das Reformas hoje urgentes à democracia brasileira, em
especial a reforma política. Vimos nas últimas eleições a dificuldade que temos
para eleger candidaturas que não estejam alinhadas com o grande capital e sim
com um projeto de transformação das desigualdades sociais, para construção de
uma sociedade mais justa, plural e igualitária.
Neste sentido, a defesa de temas como o financiamento público de
campanha, o voto em lista – com respeito a diversidade sexual, as questões de
gênero, as raça e geração – e a ampliação dos instrumentos de participação
popular devem fazer parte de nossa agenda
cotidiana.
O Brasil é um dos poucos países capitalistas que não promoveu uma reforma
de redistribuição de suas terras. Enquanto a maior parte dos investimentos
públicos e privados são direcionados à agroexportação mais de 80% dos alimentos
que chegam à mesa do povo brasileiro vem da agricultura familiar. Para construir
uma sociedade realmente justa e democrática, a ABGLT precisa somar-se as lutas
por um novo modelo agrícola, que produza com respeito as trabalhadoras e
trabalhadores do campo e ao meio ambiente, preocupado com as qualidades dos
alimentos e com a garantia da soberania alimentar.
O monopólio dos meios de comunicação e a completa ausência de
instrumentos de controle social sobre a mídia é outro obstáculo importante à
conquista de uma efetiva democracia em nosso País. É fundamental que a ABGLT, em
aliança com os movimentos pela democratização das comunicações defenda uma nova
política para este setor, através de uma reforma da Mídia que ajude a superar o
modelo de sociedade o qual devemos combater, capitalista, heteronormativo,
machista e racista.
Considerando o momento conjuntural que vivemos, também se faz necessário
que a ABGLT intensifique o caráter de mobilização de lutas, ampliando o dialogo
com outros movimentos sociais e populares. Avançamos nesse sentido ao criar em
nossa estrutura a Secretaria de Relações com os Movimentos Sociais. Essa
articulação é fundamental para o fortalecimento da contra posição ao avanço dos
pensamentos e setores conservadores na sociedade.
Para enfrentar estes desafios lançados se faz urgente e central
repensarmos o processo de formação das nossas ativistas. Para isto a ABGLT dá um
importante passo ao criar na sua estrutura organizativa uma Secretaria de
Formação Política e Organização.
É necessário ampliar e qualificar as fileiras do movimento LGBT
brasileiro, fortalecendo a sua pluralidade e compreendendo que a nossa
diversidade de orientação sexual, de
gênero, racial, geracional e de outras dimensões da nossa vida social, é o maior
valor que precisa ser construído e promovido na nossa sociedade.
Demonstramos ter uma responsabilidade política proporcional à nossa
importância e tamanho ao criar nossas Secretarias Específicas de Juventude,
Pessoa Idosa, Mulheres, Travestis e Transexuais, Combate ao Racismo e Pessoas com
Deficiência.
Além da formação, outra questão central que deve orientar nosso próximo
período, é a ampliação do dialogo com outros movimentos sociais, que também
estão prejudicados com o atual congelamento nas politicas de direitos humanos e
no desrespeito a laicidade do estado. Se
os setores conservadores se unem contra nós, devemos nos unir para fazer o
contraponto, para reverter esse cenário, só assim poderemos retomar o período de
avanço que tínhamos antes de 2010.
Por fim, é preciso rediscutir nossa relação com o governo, na posição de
movimento social, garantindo a nossa
independência e autonomia frente a qualquer Governo. Cobramos, formulamos e
fazemos o controle social, dentro do tamanho de nossa responsabilidade como
maior Associação do movimento LGBT, respeitando, articulando e construindo junto
com as outras entidades. Infelizmente no ultimo período, com a desarticulações
dos Gts temáticos com o governo federal e como atual desrespeito que o conselho
sofre, o governo tem se distanciado do movimento LGBT. É preciso pensar em uma
agenda de maior incidência política, para assim ganhar força
institucional.
A instalação do Conselho Nacional LGBT, concretizando o tripé da
cidadania LGBT no âmbito federal, é uma conquista importante. Todavia, apesar de
sua criação como um instrumento de garantia da participação na formulação e
controle social das políticas públicas LGBT,
tem sido sistemático o desrespeito a este espaço como vimos nos casos de
criação dos Comitês de Combate a Homofobia e no esvaziamento da campanha do selo
“Faça o brasil território livre da homofobia”.
A ABGLT reafirma sua convicção de que a democracia participativa e o
controle social são essenciais à
construção de uma verdadeira democracia em nosso país, mas iniciativas como a instalação destes Comitês pela falta de
diálogo com os movimentos sociais, e com o próprio Conselho Nacional LGBT, bem
como com as instâncias governamentais que coordenam a política LGBT nos estados
e municípios, vão na contramão do que vem sendo proposto, pelo governo e
movimento social.
Além de contrariar as deliberações das conferencias para a criação de
politicas de estado de combate a homofobia e promoção da cidadania LGBT, os
Comitês não passam de espaços organizados pelo governo para discussão da
sociedade civil, com a própria sociedade civil. Carecem de envergadura politica,
estrutura, representação, podendo até contribuir para um processo de
esvaziamento dos conselhos, espaços que revindicamos há anos, que agora começam
a ser implementados nos estados e municípios.
Os desafios são grandes, porém nossa força, capacidade e base política
também. O próximo período será de luta, mas sem duvida os avanços virão a curto,
médio e longo prazo.
Avante ABGLT, para seguir em frente!
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